TERAPEUTA

TIAGO CUNHA

Depois de algumas quedas, a gente começa a temer o amor. Não é só medo, é instinto de proteção. O coração ferido aprende a desconfiar da beleza, a questionar o afeto, a duvidar da sorte. A gente vê sinais de abandono onde há apenas silêncio, interpreta hesitação como desinteresse, e transforma pequenos desencontros em presságios de mais uma dor.

Tudo se torna um campo minado. O carinho que antes aquecia, agora assusta. A possibilidade de recomeçar parece um luxo que já não nos pertence. Ficamos melindrosos, céticos, com medo de mergulhar — mesmo quando a água parece limpa e tranquila. Quem já amou demais, quando se quebra, aprende a amar de menos.

O medo de amar de novo nasce das cicatrizes que ainda ardem. Daquela vez em que a gente deu tudo e rrecebeu pouco. Daquela outra em que acreditou nas promessas e se afogou nas ausências. Das vezes em que moldamos nossa essência para caber no mundo do outro e, no fim, fomos deixados de lado mesmo assim.

Machuca perceber que não bastou. E essa dor nos ensina a recuar. A levantar muros, a criar listas de exigências, a pensar duas, três, dez vezes antes de dar o próximo passo. Não por orgulho. Mas por medo de nos perder novamente. Porque ninguém quer amar e sair menor do que entrou.

Mas viver sem amar é o quê, senão uma sobrevivência pálida? Amar é o que colore os dias, é o que aquece as manhãs frias, é o que faz o tempo parecer mais generoso. Não amar é uma forma elegante de morrer em vida. É manter os batimentos no peito, mas deixar o coração trancado. É estar, mas não se permitir ser.

E isso, por mais seguro que pareça, é uma prisão. Porque, no fundo, todos nós desejamos encontrar alguém com quem a vida fique mais leve, alguém com quem dividir os medos, as conquistas, as imperfeições.

A questão é: quando estamos realmente prontos para amar de novo? A verdade é que talvez nunca estejamos. Talvez esse tal de “estar pronto” seja uma ilusão. Porque o amor não exige preparo — exige coragem.

Amar depois de uma decepção é um ato de fé. É como pular de paraquedas sem saber se o tecido foi costurado direito. É confiar que, desta vez, talvez o voo valha o salto. E se não valer, a gente se acolhe, se reinventa, aprende mais um pouco. Mas pelo menos viveu. Pelo menos tentou.

Amar de novo é, sim, um risco — mas talvez o único risco que vale a pena correr mesmo quando estamos com medo. Porque o coração, por mais machucado que esteja, continua sendo chamado para viver em plenitude. E plenitude não combina com covardia.

Amar de novo é permitir que a esperança tenha outra chance. É aceitar que, mesmo depois de tantos tropeços, ainda há beleza esperando para acontecer. E não é garantia de final feliz — é apenas o compromisso de viver o que é verdadeiro, mesmo que seja imperfeito.

No fundo, quem ama de novo não é quem esqueceu as feridas. É quem decidiu que, apesar delas, ainda merece viver algo bonito.